COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI? – JOÃO MEIRA

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COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI? – JOÃO MEIRA

Por João Meira Advogado – Formado pela UFV, Mestre em Direito pela UFMG, professor, advogado e ativista. Minha luta é pela Democracia.

Este texto marca, então, o início das reflexões que imagino serem necessárias à uma sociedade que valoriza a democracia e pretende se blindar às possíveis ações arbitrárias de um presidente populista de extrema-direita.

Então comecemos.

1.O Show de Truman? A (sur)realidade política brasileira.

Já não sei quantas foram as pessoas (mulheres, especialmente) que vieram contar das crises de pânico, dos momentos de depressão e das crises de ansiedade por culpa destas eleições. Como uma grande amiga disse: as vezes parece que estou preso em uma grande pegadinha — uma versão política do famoso filme “Show de Truman”.

Mas não. Nós sabemos que isso tudo é real, por mais surreal que pareça. Bolsonaro venceu. Nós elegemos um ex-militar, sobre o qual pesam acusações de ter sido “afastado compulsoriamente” por insubordinação. Esse militar de rendimento medíocre, que defende um discurso sectário, condenado em primeira instância por racismo e que teve de ressarcir uma mulher por culpa de agressões verbais impensáveis a qualquer ser humano com o mínimo de decência; será o 38º presidente do Brasil.

Ainda que Bolsonaro tenha conseguido acumular estrondosos 45% de rejeição logo no primeiro turno destas eleições, a maioria do povo brasileiro foi às urnas para eleger uma liderança assumidamente autoritária com tantos contornos fascistas como nunca tivemos em nossa política.

E nesse momento, ao contemplar esse desastre, pergunta que não cala é: como chegamos até aqui?

2. Entre Bolachas e Celulares: fugindo da política

Você já percebeu o quanto é difícil tentar convencer os outros? É, provavelmente, uma das tarefas mais difíceis que existe. Bora dar uma viajada pra tentar entender o tamanho da dificuldade? Olha só: você é um ser humano que, do momento que foi concebido — lá no útero da sua mãe — até este exato momento, teve uma experiência de vida ÚNICA. Isso mesmo. O que você viveu, só você viveu; não importa se você é um chinês de 30 anos que mora com sua mãe, pesa 130kg e passou a maior parte da sua vida jogando MineCraft; ou se você é uma ativista humanitária que trabalha no Continente africano para o programa “Médico Sem Fronteiras” há 20 anos, depois de ter formado aos 10 em medicina na Universidade de Harvard. Tanto o nerd espinhento quanto a Dalai Lama do ocidente viveram experiências únicas.

Mas e daí? E daí que cada um de nós acaba por ter percepções únicas sobre a própria realidade. Não entendeu? Eu explico. Se você nasceu no sul de MG e um outro camarada no interior paulista, ainda que a cidade de vocês tenha cerca de 10km de distância, existe a possibilidade de você chamar “bolacha” de “bolacha”, enquanto o outro infeliz chama de “biscoito recheado”. Quer mais? Pode ser que, no interior de SP ainda exista um outro pobre coitado que chama “biscoito sem recheio” de “bolacha” e “bolacha” de “biscoito recheado”. Em uma das pontas da discussão existe o gosto salgado de um biscoito crocante, na outra o gosto doce de um sanduíche de trigo recheado com uma deliciosa massa gordurosa. Você tá entendendo o que eu quero dizer? Não? É simples: até a mais básica das comunicações sofre ruídos. Não importa quão parecida seja a criação e a genéticas de duas pessoas, o significado das palavras e dos próprios objetos que são de uso diário nunca será IDÊNTICO. Pra ficar bem claro: pessoas que nascem em lugares muito parecidos, que têm histórias de vida muito parecidas, frequentam escolas muito parecidas, ouvem músicas muito parecidas e tiveram pais muito parecidos CONSEGUEM DISCUTIR ETERNAMENTE SOBRE O NOME DA PORCARIA DE UMA COMIDA FEITA COM GORDURA HIDROGENADA!

Você tá rindo né? Mas pode parar. Se nós temos essa incrível dificuldade comunicativa pra falar das coisas mais banais do mundo, imagina qual é o tamanho da dificuldade em discutir o sistema econômico para um país continental de 200 milhões de pessoas. Parece uma tarefa impossível, né? E de certa forma é, mas ainda assim é algo que TEM QUE SER FEITO.

Isso coloca a nossa espécie diante de um dilema: nós não queremos ter que discutir sobre temas complexos, necessários e que não têm uma resposta estreitamente certa (bem-vindos ao conceito de política deste texto) e, ao mesmo tempo, nós temos que fazer isso para sobrevivermos.

Acontece que esta noção se perdeu no tempo. Com o desenvolvimento da tecnologia, as tarefas mais banais de subsistência (como plantar a própria comida) perderam sua função e, conforme a tecnologia e o conhecimento se desenvolveram, o ser-humano necessitou cada vez menos de se engajar em atividades públicas e, consequentemente, no ato político em si. Não seria demais analisar os avanços tecnológicos dos últimos séculos enquanto uma busca incansável para nos afastar das tarefas tediosas e/ou conflituosas da convivência humana.

Você tá olhando pra cima e pensando se isso faz algum sentido, né? Então deixa eu te ajudar: a própria democracia representativa é um esforço gigantesco para retirar das mãos DOS CIDADÃOS o dever de debater politicamente e tomar decisões políticas. Eu tenho certeza que você está pensando “nada disso! A representatividade serve para otimizar as decisões e não para livrar os outros do dever de toma-las”. Tá tudo certo, mas pensa bem, campeão: pra que a gente pudesse considerar a possibilidade de eleger representantes, era necessário que existisse, antes, a anuência DE TODOS OS CIDADÃOS para que fosse possível a existência de representantes. A troco de quê alguém daria todo esse poder a uma terceira pessoa (provavelmente desconhecida)? Isso mesmo: por achar um porre, ou por ter vontade de fazer outras coisas. MAS PRESTEM BASTANTE ATENÇÃO! Não estou falando aqui de negros, mulheres, pobres ou quaisquer outras minorias , que passaram a maior parte da história ocidental como objetos — estou falando dos “cidadãos históricos”! A democracia representativa começou a existir, antes de mais nada, por culpa de homens, brancos e ricos que não queriam ter que perder seu tempo com política.

Do exemplo da democracia representativa, sobre o qual você talvez ainda relute a concordar comigo, nós podemos passar para a reflexão sobre todas as ferramentas que hoje movimentam a maior parte do dinheiro do mundo SÓ PRA FAZER COM QUE VOCÊ NÃO LEVANTE ESSA BUNDA DO SOFÁ PRA COMPRAR UMA BOLACHA NO SUPERMERCADO!

Enfim, apesar dos exageros do texto, eu acredito que você, caro leitor, tenha entendido a ideia. A política é uma atividade conflituosa, polêmica, complexa e que envolve a comunicação. A comunicação, por sua vez, é algo cansativo, que demanda muita energia e paciência. É natural que nós tenhamos vontade de evitar tudo isso e escolhamos sair fora dessa “zona de conflito”.

Mas, por mais natural que seja, essa escolha – ainda assim – é péssima.

3. Netflix and chill: vivendo em não-comunhão

Quantas pessoas você conhece (se não for, você mesmo, uma delas) que prefere ficar sozinho em casa assistindo Netflix no lugar de ir em uma festa de aniversário meia-boca de um colega de trabalho que você acabou de conhecer? É quase uma decisão instintiva, certo? Pois é. Isso diz muito sobre quem nós somos hoje.

Participar de eventos públicos já foi uma das maiores virtudes humanas. Tá ligado naquela história de “viver em comunhão”? Pois é. Não significa “comer hóstia com vinho pra sempre”. Durante a maior parte da existência humana nós compreendemos o valor dos atos públicos. Festas familiares, rituais religiosos, reuniões de clubes… Isso tudo já teve um significado muito diferente do que tem hoje. Por toda nossa história o engajamento com os nossos comuns – com as pessoas que convivem conosco – sempre foi compreendido como um ato necessário e, além disso, muito valoroso. Isso não é à toa. Por mais difícil que seja conviver com um ser diferente, é nessa convivência que nós conseguimos nos desenvolver enquanto indivíduos. Nossa capacidade de comunicação, de percepção, de interpretação, entre outras inúmeras habilidades e características, exigem NECESSARIAMENTE o contato com outro ser humano. Isso quer dizer que sozinhos nós somos limitados.

Mas não é só isso. Pode ser que você seja o nerd de 30 anos que quer continuar jogando seu Minecraft. Ainda assim, você PRECISA de contato com outros seres humanos para ter uma vida minimamente saudável. Nós fomos construídos geneticamente para isso e eu arrisco dizer que essa característica natural se aperfeiçoou com o tempo, conforme fomos obrigados a viver, cada vez mais, em contato com “o próximo”.

Isso quer dizer que sozinhos nós somos doentes.

4. De Jakarta a Piúma em um pub crawl: a intolerância egocêntrica

Você já deve estar de saco cheio e se perguntando “quando ele vai começar a chegar no ponto”? Pois segura essa ansiedade millenial mais alguns minutos que já tá chegando.

Ainda que seja parte NECESSÁRIA do ser humano viver em comunhão, nós já sabemos que fomos bem sucedidos em reduzir essa necessidade. Inventamos sistemas representativos, métodos de produção para nos distanciarmos no trabalho, celulares para evitarmos conversas pessoais, entre outras inúmeras bugigangas que nos afastam dessa difícil e conflituosa convivência com esse monte de gente diferente. Só que, como já mencionei antes, o nosso sucesso em evitar o que é necessário não faz do necessário algo trivial. Você pode tentar se esconder o quanto quiser dos outros seres humanos, pode comprar quantos vibradores ou bonecas infláveis que tiver vontade, pode conversar com a Siri ou a Bixby o quanto quiser, ainda assim você PRECISA se relacionar com outras pessoas para ser minimamente saudável. Só que esse texto não é sobre saúde (ao menos não especialmente) — é sobre nosso desastre político e, em relação a isso, é provável que tudo faça ainda mais sentido.

Dentre as grandes dificuldades de viver em sociedade, lidar com o diferente talvez seja o fator mais difícil. Só que existem vários “tipos” de diferentes. Uma coisa é a diferença entre você e aquele vizinho insuportável que ouve sertanejo universitário toda noite porque não consegue dar um match no Tinder; outra coisa é a diferença entre você e um aiatolá iraniano. Acontece que a democracia ocidental tem como objetivo lidar com estas diferenças. O lema é mais ou menos esse: respeitamos todas as diferenças, desde que essa diferença não seja uma imposição violenta a outro indivíduo.

Ou seja: tá tudo certo se você é um nerd, uma versão moderna do Dalai Lama ou um aiatolá iraniano perdido no interior do Brasil. Nosso sistema democrático foi criado para acolher todas estas diferenças — pelo menos em tese.

PORÉM, é simplesmente ingênuo acreditar que a tolerância de todas estas diferenças irá acontecer só porque “tá escrito na Constituição”. Assim como a capacidade comunicativa, a tolerância é um exercício. Ela não é — em regra — algo que acontece naturalmente em nós. Nós temos uma propensão a achar esquisito o que é diferente (aliás, só é esquisito aquilo que é diferente, já parou pra pensar nisso?). Esse exercício é, então, um exercício político por excelência. Eu só tolero e respeito aquele que é diferente de mim por ter contato com ele. Exercitar a tolerância e o respeito mútuo é um exercício de empatia e de conhecer e reconhecer no outro mais do que as diferenças — é um exercício de reconhecimento de nossas semelhanças.

A partir de agora eu imagino que esteja mais claro o que quero dizer. O buraco que estamos nos afundando politicamente faz parte de toda uma lógica que distancia nós brasileiros. Cada vez mais voltados para nosso próprio umbigo e distantes de tarefas comuns e públicas, nós estamos vivendo em ilhas dentro das quais mal convivemos com nossos próprios familiares. Para deixar a situação ainda mais dramática, nós estamos nos fechando completamente a qualquer experiência que nos coloque minimamente fora da zona de conforto. Hoje viajamos para o outro lado do globo para ficar em piscinas de frente para a praia que, se não tivéssemos gasto o dinheiro da última parcela da nossa casa própria, mal saberíamos diferenciar da piscina de plástico na laje daquele apartamento em Piúma. Até quando nos jogamos no que, supostamente, deveria ser a maior aventura de nossas vidas, acabamos por experimentar as mesmas coisas que encontramos no boteco da esquina — afinal, como compreender a existência dos famosos (e lotados) “pub crawls”?

Diante dessa cenário, como seria possível exercitar a tolerância? Como seria possível sustentar as crescentes diferenças de uma sociedade que tem como intenção acolher os mais diferentes estilos de vida? Não é possível e isso está sendo colocado à nossa frente nesse exato momento. Nos fechando em nossas próprias bolhas, cada vez mais distantes do trato público e de convivência com o diferente, nós estamos nos tornando mais preconceituosos, intransigentes e incompreensíveis do que nunca fomos. Estamos semeando esperança em um terreno arenoso — e nesse terreno não tem muita coisa que floresce.

5. Bellorophon e Chimera: a missão impossível do fascismo

Hannah Arendt explica que o terror fascista só consegue se instalar entre pessoas isoladas uma das outras e o fascismo se baseia em uma grande mentira que promete acolher estas pessoas isoladas. A história é sempre a mesma: um líder que se diz diferente de todos os outros líderes cria uma estória fantasmagórica usando como lastro casos de corrupção e frustrações sociais reais.

Diante da narrativa mentirosa, as pessoas isoladas se vêm, ao mesmo tempo, aterrorizadas pelas estórias apavorantes (“os judeus vão dominar o mundo”, “os comunistas comem criancinhas”, “o Pablo Villar vai distribuir kit gay pro seu filho de 5 anos de idade”) e esperançosas por finalmente se sentirem parte de um grupo.

Se você é fã do Choque de Cultura e das grandes franquias do cinema, vai entender melhor dessa forma: o fascismo é como a trama do filme “Missão Impossível 2”; eles criam o antídoto (Bellorophon), para depois criar a doença (Chimera) e injetar a doença no povo para ganhar poder.

O resumo é simples: o principal fator que possibilita a colheita maldita (eu tô demais nas referências cinematográficas) do fascismo é o terreno da solidão.

É nesse terreno que temos que trabalhar.

6. E agora?

Bem… Essa é uma análise mais profunda sobre o pano de fundo que nos trouxe até esse momento, mas existem, logicamente, outros fatores importantes para construção desse cenário. É necessária a descrença nas autoridades políticas tradicionais, uma frustração social baseada em uma crise econômica grave, a sedimentação de um discurso moralista e simplista anti-corrupção, além de uma lambança generalizada das lideranças opostas ao fascismo que facilitem a eleição de um líder fascista.

Ainda assim, me parece suficientemente claro, por toda a bagagem de estudo que tenho, seja através de relatos históricos ou de teorias político-filosóficas, que não há possibilidade de desenvolvimento do fascismo em uma sociedade de cultive o espírito político e o engajamento cívico. As virtudes públicas são, sem dúvidas, amargas de serem cultivadas. Dedicar-se a associações de bairro, fazer parte de partidos políticos, dar aulas em projetos sociais fazem parte dessas atividades cotidianas laboriosas e muitas vezes entediantes/estressantes, mas são ações que nós DEVEMOS cultivar, pela nossa saúde mental e pelo bem da comunidade onde a gente vive.

Parafraseando a terapeuta de “Rick e Morty”, não existe aventura nenhuma em fazer o que tem que ser feito. Escovar os dentes, lavar louça e aguentar aquele colega de trabalho insuportável são tarefas que nós temos que fazer, por mais insuportável que sejam. Algumas pessoas acham ok em se submeter a estas tarefas, mas outras preferem morrer ao invés disso.

Cabe a cada um de nós escolher.

 

 

Por | 2018-11-02T10:24:46-03:00 novembro 2nd, 2018|News, Noticias, Patrocínio e Região, Politica|0 Comentários

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