CONGADA, ANCESTRALIDADE E RESILIÊNCIA: MOÇAMBIQUE OURO DE MARIA

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CONGADA, ANCESTRALIDADE E RESILIÊNCIA: MOÇAMBIQUE OURO DE MARIA

 

 

 

Por Revalina Silva

“Como eu posso escrever na água,

Como eu posso escrever na areia,

Escrevi Ouro de Maria

O sangue que corre na minha veia”

 

Há mais de três anos, surgia no município de Patrocínio o grupo de congada  Moçambique Ouro de Maria. Iniciar um movimento de cunho cultural e afroreligioso requer muito mais do que gostar e ter  boa vontade. É necessário resiliência, voltar as origens, buscar a ancestralidade africana e enfrentar toda e qualquer manifestação de racismo e intolerância religiosa.

Cientificamente, existem teorias que possam justificar ou conceituar o termo  Congado, como mostra a professora Juliana Bezerra, que define como “ uma expressão cultural e religiosa que envolve o canto, dança, teatro e espiritualidades cristã e de matriz africana.”

No dicionário eletrônico pode-se encontrar o conceito de que a congada (o) “é um  tipo de dança dramática que representa a coroação de um rei e  rainha do Congo, constituída de um cortejo com passos e cantos, onde a música acompanha a expressão dramática dos textos, e que se caracteriza pela embaixada, por evoluções processionais e lutas simbólicas de espada. É de criação de escravos no Brasil, registrando-se desde 1674 em Pernambuco, mas na sua origem podem estar antigas disputas entre tribos rivais do Congo e de Angola.”

Através da oralidade apareceram ainda milhares de conceitos, histórias do surgimento, definições orais que representam a herança que é passada nas gerações. E além disso o sentimento de pertencimento as origens. Entoadas nas letras de música como;“Sou congadeiro, sou congadeiro sim, meu avõ ensinou meu pai, meu pai ensinou pra mim.”

Então, com o objetivo de resgatar a cultura afrodescendente, através da fé, da dança, canto, lamento, e pelo toque do tambor, em louvor a Nossa Senhor do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia, o Moçambique Ouro de Maria foi fundado em Fevereiro de 2017, por Baltazar Cesar da Silva e sua família, com auxílio do amigo e também Capitão do Grupo Congo Rosário de Maria, Cícero Santos iniciaram a busca pelo resgate da ancestralidade através do congado, uma vez que participam desde a época em que eram crianças em outros grupos.

O moçambique, é uma das modalidades da congada, e para Cristina Tolentino no guia SOBRE AS FESTAS DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS – (CONGADO), o   “Moçambiqueiro é senhor da coroa santa. Com seus bastões sagrados, é ele que conduz o reinado. Senhores da música secreta, cantam a memória da África e dos seus ancestrais . São mais velhos e por isso andam devagar . Sua dança sincopada e lenta representa o lamento africano e o ritmo suplicante do canto. Usam gungas nos pés ( pequenas latas com pedacinhos de chumbo dentro, sustentadas por correias de couro e que são amarradas no tornozelos ) que ampliam a duração e o peso dos movimentos. As gungas representam as correntes que prendiam os escravos, nas quais eram colocados guizos para descobrir negros em fuga. Seus pés nunca se afastam muito da terra. As cores das roupas, geralmente branca ( calça e camisa ) e azul ( saiote ), representam o manto de Nossa Senhora”

“Estou calçado com a gunga sagrada, vi terra molhada levantar poeira,

Essa gunga vem de longe, atravessou o mundo inteiro,

Vem de Angola, vem de Angola, essa gunga vem de la, correu terra correu mar!”

Com as cores das vestimentas amarela e branca representando o ouro e  aproximadamente 60 componentes o  Moçambique Ouro de Maria teve seu batizado realizado na cidade de Cruzeiro da Fortaleza, uma vez que a cidade de Patrocínio teve sua festa suspensa, (festa em Louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito ), dando assim início as  atividades e visitas do grupo, que já participou das festas mais tradicionais da Região, como Guimarânia, Cruzeiro da Fortaleza, Carmo do Paranaíba, Patos de Minas, Araxá, Salitre, Serra do Salitre, Brejo Bonito e Romaria (onde acontece o inicio das festividades, e o maior encontro de congadas da região, no mês de maio).

Hoje o grupo é comandado pelos Capitâes Baltazar Cesar, Diogo, Guilherme, senhor Antonio José, Danilo, Marcio Eloiso que comandam as pantagomas, gungas e tambores (tocados pelos rapazes), e também  pelas capitãs Lucelia e Luciene que comandam as meninas da bandeira ( que dançam e cantam).

Um movimento autônomo, que autofinancia as viagens, instrumentos, uniformes, adereços, com inúmeros gastos,  ainda assim mantém e perpetua a cultura e  tradição levando para os pequenos os ensinamentos que foram passados através das gerações e do conhecimento adquirido durante os encontros com outras realidades próximas.

Em parceria com os grupos Congo Estrela Guia (do Capitão Marcelo Adriano), Congo Rosário de Maria ( Capitão Cícero), Moçambique Ouro de Maria mantém o Grupo Social Unidos do Congo, que proporciona atividades esportivas e culturais no Bairro Serra Negra. Já no bairro Eneas, ministra oficinas de Moçambique em parceria com a Cufa Patrocínio MG.

Resiliência, resistência, representatividade e ancestralidade marcam o início da história do Moçambique Ouro de Maria, que ainda terá muitas páginas a serem escritas, contadas e cantadas por onde passar e com quem encontrar..Resistindo e persistindo dentro desse sistemaque ainda é racista e intolerante.

“Canta negro, canta… canta na língua africana.”

Revalina Aparecida da Silva

Pedagoga (Unicerp) – Especialista em Educação de Jovens e Adultos na Inclusão e diversidade social (Universidade Federal de Uberlândia) – Ativista Social e Cultural – Moçambiqueira – Coordenadora da Cufa Patrocínio MG.

 

Referências:

https://www.todamateria.com.br/congada/

https://www.google.com/search?q=congada&rlz=1C1VFKB_enBR623BR623&oq=congada&aqs=chrome..69i57j0l3j69i60l2.3132j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8

http://www.caleidoscopio.art.br/grupobayu/artigo02.htm

 

 

Por | 2020-03-04T15:52:27-03:00 março 4th, 2020|Patrocínio e Região, Projetos Sociais|0 Comentários

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